domingo, 24 de março de 2013

Entrevista Imaginária a um mirone das obras

 

Todos temos em nós uma espécie de mirone, uma sede voyeurista mais ou menos desperta de saber o que se passa na vida dos outros mas há aqueles cujas vidas parecem formatadas apenas para isso. Chamar-lhes-ia os “mirones profissionais”. Entre estes há uma subespécie muito particular, os mirones das obras.

Fomos saber mais sobre a vida destes particulares indivíduos. Apresento-lhes o Sr. Aníbal Silva, 45 anos, empregado de mesa, um autêntico apaixonado pela construção. Nascido e criado em Marvila, como gosta de dizer, recebeu-nos na sua casa com um sorriso largo e muito para contar.

Sr. Silva, muito bom dia, quer falar-nos um pouco sobre esta paixão?

Sabe, sinto que nasci para isto. Aprendi com o meu pai e o meu avô, pode dizer-se que é uma tradição de família. Já assisti para cima de 1000 obras em toda a minha vida. A primeira vez era gaiato, tinha os meus 7 anos. Foi amor à primeira vista…Era ver os outros miúdos a jogar à bola e eu ali, fizesse sol ou chuva, ninguém me arrancava do lugar!

Entendo mas faça-nos entender qual a razão de toda esta dedicação?

Meu amigo, sou licenciado pela Universidade da Vida. Gosto de ver bola mas senti que precisava de algo mais. O Futebol é bom mas o mironismo é um modo de vida! É espetacular ver os prédios a ganhar vida. Para mim é como se fosse Natal todos os dias!


É fácil ser-se mirone de obras em Portugal?

Ó amigo isto não está fácil…Agora com a crise parece que não há obras neste país, os mirones como eu agora têm que lutar pelo seu espaço.

Há por aí muito bom mirone mas não há apoios. Uma pessoa tem que emigrar, é triste!

Mas não me posso queixar, toda a gente sabe quem sou. É perguntar pelo Aníbal do boné! Uma vez até conheci um Doutor que era Engenheiro. Muito bom rapaz, ofereceu -me um boné. Daí o nome!

Quais são os principais problemas que um mirone enfrenta?

Epá se eu fosse começar nunca mais saíamos daqui, não pense que isto é fácil. Para começar temos os polícias, um gajo trepa para o muro e tal para ver melhor e lá vem um dos gajos azucrinar-nos. Deviam era estar a prender os políticos, esses gatunos!

E depois é a segurança…Aos 19 anos apanhei com um bloco de cimento no lombo, tava a ver que ia de vez! Mas aqui o Silva não se deixou acagaçar. Umas costelas partidas e tal e já estava pronto para outra.

Aliás até tenho que agradecer, foi assim que conheci a minha mulher, durante o mês que passei no hospital.

Então imagino que a sua mulher era a enfermeira que tratou de si?

Nada disso meu amigo. A minha mulher estava internada no quarto ao lado. Era mirone de desacatos e discussões. Não manteve a margem de segurança e já se sabe…Levou uma lambada que a deixou KO. São os riscos profissionais!

Por falar nisso, já pensou em enveredar por outros tipos de mironismo?

Quer-se dizer…já experimentei mas eu é mais obras. Tive um tio, paz à sua alma, que era mirone de acidentes mas deu-se mal!

Disse-me que o seu filho também é um apaixonado?

É verdade, aquele sacaninha é o meu orgulho. Sai ao pai, é um talento! Bem trabalhado há de ser o Cristiano Ronaldo dos mirones, o amigo aponte o que eu lhe digo!

A única coisa que me chateia nele é ter a cara chapada do Santos do 4ºEsq. A minha esposa é muito amiga dele e da mulher. Estão sempre a discutir e a minha Elisabete não perde uma. Até já foi de férias com eles!...Esperem lá, vocês querem ver que…?! Cala-te Aníbal, bem diz a tua mulher que és paranóico!

 

Sr. Silva, vejo que por vezes fala com alguma nostalgia do passado. De que sente falta?

Ó amigo, este País estava aí a precisar de um campeonato de um mundo ou de outra coisa para animar. O meu orgulho foi a Expo 98! Foram dias e dias ali a ver aquilo tudo a ser posto de pé…e a ponte, que maravilha! Ouvi dizer que a exposição também foi gira mas disso não percebo muito.

Também gostei muito do Europeu até fui a Braga de propósito para ver A Pedreira. Belos tempos! Se me sair o Euromilhões ninguém para o Aníbal do Boné!

Muito obrigado pelo seu tempo Sr. Silva e boa sorte.

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